- Sarah, acorde! - ouço o berro da minha mãe, vindo da cozinha. Levo uma vida relativamente comum: pertenço à classe média alta, moro no mesmo apartamento desde os sete anos; atualmente tenho treze. Tenho os cabelos castanho-claro, cacheados, e olhos azuis. Minha avó, antes de morrer, costumava dizer que tenho pele de porcelana, por ser muito clara.
Levanto da cama, estico meus músculos e olho à minha volta. Tenho milhares de pôsteres, inclusive uma prateleira sagrada para meus livros da série "Mística". Milhares de pessoas no Brasil afora eram maníacas por ela, assim como eu. Quando chego no banheiro e olho no espelho, me assusto. Minhas pálpebras estavam manchadas de preto por causa da maquiagem da festa de ontem, e meu cabelo poderia servir de ninho para alguns passarinhos no caminho da escola. Amarrei-o num rabo de cavalo, lavei o rosto e fui, arrastando os pés, tomar café da manhã.
- Sarah, você já olhou as horas? - minha mãe resmungou.
- Não. Não quero correr.
- Sinto muito, faltam quinze minutos para a sua aula começar.
Droga, odiava me atrasar. Soquei um pedaço de pão na minha boca, e com medo de engasgar, bebi um gole de leite direto da caixa. Deslizei dentro do meu uniforme, peguei minha mochila e saí correndo.
- Ah, desculpa! Bom dia! - falei ao porteiro com cara de tédio ao esbarrar nele. A caminhada pra escola durava cinco minutos, mas agora teria que durar no máximo dois, já que estava correndo. Uma sensação de alívio tomou meu corpo ao chegar nos portões da escola Bandeirantes, cinco minutos antes de tocar o sinal.
- Caramba, Sarah! Onde você estava?- Paola disse, saltitando na minha direção. Paola, mais conhecida como Poppy, era minha melhor amiga. Ela era meio maluquinha, justamente o que eu gostava nela. Seu humor alegrava meus dias.
- Dormindo. - respondi, andando em direção à nossa sala.
- E acordou de mau humor, pelo visto. - Poppy retrucou, fazendo uma careta. - Ai meu Deus, olha lá, é o Bruno.
- Hm. - Bruno era provavelmente um dos garotos mais lindos da escola, se não da cidade. Poppy insistia que eu gostava dele, mas não era verdade.
- Sarah! Ele acabou de olhar pra você! - ela batia histericamente no meu braço. Assim que a informação processou na minha mente, minha tentativa de enfiar o livro de matemática no armário falhou de vez. O livro caiu no chão e a porta ricocheteou na minha cabeça.
- Onde?! - Bom, talvez fosse verdade. Um pouquinho verdade.
- Nossa, precisava ser tão afobada assim? Ele já passou. - Poppy falou, pegando meu livro de matemática do chão.
- Ah, me desculpe se você só serve pra atiçar a minha curiosidade. - disse com um sorriso bobo.
Lá estava eu, quieta em meu canto, servindo de estátua para o resto da turma em sua rotineira baderna. A professora explicava (ou tentava, como na maioria das vezes) as instruções para nosso próximo trabalho.
- Tudo bem, turma! Agora é com vocês. - ela vociferou, incomodada o bastante com o desrespeito. Sentou em sua mesa.
Eu era relativamente quieta, e considerada a nerd da turma. Desde o maternal. Ao invés de fazer o que devia, fui completar minhas anotações. Dia: 10/4, quinta-feira, 9h30 da manhã. Grupo (ou gangue, como prefiro chamar) da Cassie discutindo a nova lista da turma. Com certeza, Sarah, meu querido nome, estaria novamente incluído nas categorias "Mais tímida", "Mais sonhadora", "Mais nerd" e, para benefício social, "Mais idiota". A pobre da Poppy era incluída apenas na categoria "Mais estranha". Tinha pena dela, apesar de perder pra ela em número de categorias. De quê adiantava reclamar, eu já estava no fundo do fundo da popularidade. Simplesmente, não vejo o porquê dos professores autorizarem essas listas.
Sou interrompida de meus devaneios com uma bolinha de papel amassado atingindo a minha cabeça. Abro para ler: era o dever de matemática do Gabe, um dos valentões da sala. No canto do papel, estava escrito:
"É para amanhã. Se não estiver feito, você já era."
Eu poderia responder com outra mensagem:
"Do jeito que isso está amassado, a professora vai provavelmente usar pra catar o cocô do cachorro."
Mas eu tenho muito amor à vida, então apenas ignorei a ideia. Outra bolinha de papel; jogo a de Gabe na mochila e abro pra ler. Não tinha nada, era apenas uma folha em branco. Sem motivo algum, a turma inteira passa a jogar bolinhas de papel em mim, rindo e voltando à bagunça normal. Uma das bolinhas se distinguiu das outras, era rosa, com margem e desenhos fofos. Poppy. Peguei a folha e abri.
"Tá a fim de ver o jogo do Bruno no intervalo? Tem uma tonelada de garotos lindos no time de basquete."
Na mesma folha, escrevi:
"Pode ser, se eu sobreviver até lá."
E joguei de volta.
- Sarah, se toca. Você não pode deixar que as pessoas te humilhem daquele jeito. - Poppy comentou enquanto andávamos para as quadras.
- Olha, eu não me importo com a opinião das pessoas. A professora nem estava olhando.
- É, mas eu estava, e eu não gosto disso.
- Que bom.
- Para! Estou tentando te ajudar e você simplesmente me despreza. Assim não conte comigo pra mais nada.
- Tá bem, desculpa. Eu só acho que não faria diferença se falasse com alguém, Poppy. - Nos sentamos nas arquibancadas com nossos lanches. Na verdade Poppy dividia o dela comigo, já que eu tinha saído feito maluca de casa. Não era novidade que havia esquecido tudo.
- Olha pra mim. Eu sei que o passado ainda te afeta. Só porque Rebecca morreu em uma brincadeira estúpida, você não precisa se culpar. O que importa é que quem fez isso está na cadeia. - Ela me pegou de surpresa ao mencionar essa história. Fazia tempo que não comentávamos dela, obviamente porque Poppy sabia que eu me sentia desconfortável.
A história sobre a qual ela se referia era um grupo de amigas que eu tinha quando ainda morava em São Paulo. Eram amigas mais velhas. Foi uma época bem transtornada, porque elas me influenciaram a frequentar a escola pública em que estudavam, às escondidas. Eu era a criancinha do grupo, mas não era por isso que era tratada diferente. Eu não era, era tratada assim como todas as outras. Exceto Rebecca. Ela era a líder do grupo, e tinha unhas perfeitas, cabelo perfeito, maneiras perfeitas, notas perfeitas. O resto era sorte, e se eu dissesse que as outras não a invejavam, estaria mentindo. Apesar de ter todo o perfil de patricinha, ela era completamente o oposto. Gentil, engraçada, bondosa, educada... eu a amava. É até difícil acreditar. Porém, sempre ouvi dizer que inveja mata.
***
"Pessoal! Sarah está conosco! - Nicole anunciou. - Podemos ir. - Chegamos a um bar, não muito adequado para a nossa idade. Bom, para a minha. Me sentia insegura quanto às roupas que elas me faziam vestir, mas me diziam que a polícia iria culpá-las e elas iriam para a cadeira se eu não as usasse. Rebecca tinha ido ao banheiro, e as meninas me puxaram para um canto.
- Escute, armamos pra rosinha. - assim elas chamavam Rebecca - Queremos que você ajude.
- O que vocês vão fazer? - perguntei.
- Distrairemos ela até os fundos. Quando ela estiver fora de si o suficiente, vamos aprontar. Está dentro? - Nicole fez um sorriso maléfico. Não gostei daquilo.
- Não. Não estou dentro. - respondi com firmeza.
- Como assim não está dentro? Amarelou com a gente agora, bebê? - Nicole ficou brava.
- Sim, é o que parece. Rebecca é minha amiga. - Nicole me empurrou contra a parede e murmurou algo parecido com "Sabia que você não prestava". Eu sabia que não podia ficar mais ali, elas armariam pra mim também, mas ficaria. Apenas por Rebecca.
Saí para os fundos, e me escondi atrás de algumas caixas de entulho. Eu ouvi elas chegando. Rebecca já estava grogue e cambaleava, se apoiando nas paredes e rindo. As outras iam atrás.
- Por quê você não senta aqui, Becca? - Julie perguntou. Amanda guiou-a para uma caixa no meio do espaço deserto.
- Então, por quê você não começa nos contando como é sua vida de riquinha? - Nicole apontava uma garrafa de cerveja para Becca.
- O quê? Eu quero dormir. - Caramba, capricharam no trabalho. Nunca havia visto Rebecca tão ausente da realidade como esta noite.
- Não se finja de boba. - Meu corpo se tensionou ao ver Nicole lentamente retirando um canivete de seu bolso. Ela se aproximou.
- Amanda, Julie, por favor. - ela gesticulou para o cabelo de Rebecca. Ambas as meninas seguraram juntas e Nicole passou a lâmina bem no meio dos fios sedosos. Uma mecha de cabelo ruivo caiu no chão."
***
- É Poppy, mas eu estava lá, é uma coisa diferente. - argumentei.
- Ok, ok, vamos nos concentrar no jogo. - O time de basquete do qual Bruno fazia parte era até bom. Eles fizeram uma cesta de três pontos logo nos dois primeiros minutos. O jogo ficou equilibrado, muitas faltas, mas o time da escola estava classificado para os jogos regionais. O resto da manhã decorreu tranquilamente, as aulas chatas como normalmente eram. A pé, voltei pra casa, as memórias ainda latejavam na minha cabeça.
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