sexta-feira, 6 de abril de 2012

Capítulo 4 - Fim?

        - Solte ela! - meu pai gritou, e só pude ver seu rosto e o de minha mãe em prantos.
        - Mais um passo e eu atiro. - o sequestrador falou. Podia imaginar o desespero dos meus pais em não poderem fazer nada pra me ajudar. Eu mesma não conseguia conter os batimentos fortes do meu coração.
        O sequestrador me conduziu, ainda presa na gravata, para o corredor do meu andar, tirando meus pais de vista. Ficamos lá por um tempo, e comecei a tentar analisar a situação. Quantos bandidos haviam dentro do prédio, como os vizinhos reagiram, Poppy... o que será que passava por sua cabeça sem ter notícias minhas. A esse ponto meu celular deveria estar lotado de SMS dela. Não queria que tudo acabasse ali.
        - Não vai ganhar nada me matando, sabe. - tive a não tão brilhante ideia de falar.
        - Calada. - O sequestrador apertou a gravata, tornando mais difícil respirar. Ele soava preocupado, será que alguma ação finalmente estava acontecendo lá fora?
        Passaram-se alguns minutos do meu pensamento quando ouvi um estouro vindo lá de baixo, mas não era de nenhuma arma, e sim de uma bomba. Depois, tudo ocorreu em uma fração de segundo. O barulho ensurdecedor do revólver do sequestrador. A gritaria vinda do térreo. Helicópteros. Passos apressados em minha direção. E meu encontro com o chão.

                                                                        ***

        Estava tudo completamente em silêncio, exceto pelo "pi" repetido que eu não sabia de onde vinha, até associar aos meus batimentos cardíacos. O cheiro do ambiente me deixava enjoada. Estava em um quarto de hospital, pude perceber sem mesmo abrir os olhos. Respirei fundo, minha cabeça doeu um pouco. Ameacei abrir os olhos, mas desisti pela claridade do quarto.
        - Ela está acordando. - minha mãe disse, próxima de mim. Resolvi abrir os olhos de uma vez, afinal a última imagem que tive dos meus pais não era lá agradável.
        - Bom dia, flor do dia. - meu pai se inclinou do outro lado da cama, e não pude evitar um sorriso. Me sentia segura. - Como está se sentindo?
        - Bem, eu acho. - respondi.
        - Graças a Deus, ficamos com tanto medo de te perder naquele dia. - mamãe disse, e não havia nada além de sinceridade na sua voz. Espera. "Naquele dia"?
        - Quanto tempo se passou? - perguntei.
        - Dois dias. Você dormiu igual a uma pedra por causa dos anestésicos. - papai explicou. Ele percebeu minha cara de confusão e acrescentou - Você recebeu um tiro de raspão no braço direito, mas o que realmente te afetou foi a pancada na cabeça. - Ah sim. Como prova do que ele disse, um ponto no meu braço direito ardeu. Olhei pro meu celular em cima de uma mesa, e imediatamente me lembrei de Poppy.
        - Poppy - disse, me levantando rápido o suficiente pra ficar tonta.
        - Ela tem ligado desde a noite do sequestro, mas preferimos deixá-la visitar somente quando você estivesse acordada. Não precisa se preocupar. - mamãe falou, me deitando de volta. Assim que ela terminou a frase, o celular tocou e meu pai atendeu.
        - Sim, ela já acordou. Claro, pode vir.
        Minha mãe ligou a televisão. Mesmo dois dias depois, as imagens do sequestro se repetiam na tela. Me sobressaltei quando me vi, desmaiada, sendo carregada por um bombeiro em meio à confusão. Minha mãe chorava abraçada ao meu pai. Logo depois, o bombeiro me colocou dentro de uma ambulância e fechou as portas. Policiais saíram da portaria do prédio com cinco bandidos presos. Fui interrompida das imagens quando Poppy bateu na porta.
        - Posso entrar? - perguntou ela.
        - Claro. Vamos, Karen. - meu pai desligou a televisão e saiu com a minha mãe, nos deixando a sós.
        - Fiquei com saudade! - Poppy correu até mim mas hesitou em me abraçar. - Você não tem noção do meu medo quando vi seu prédio no noticiário.
        - Não te culpo, eu também estava com medo. - falei, e nós duas rimos. Percebi uma lágrima se formando no canto do seu olho. - Eu estou bem agora, não precisa chorar, sua boba. - disse enquanto pegava a lágrima que escorreu pela sua bochecha. - Como tem sido a escola sem mim?
        - Um horror, não tenho ninguém pra conversar. Mas Sammy, não param de falar de você. - ela falou.
        - Ótimo, agora vou ser a "garota do sequestro" pro resto da minha vida.
        - Também não exagera, né. O Bruno veio me perguntar de você. - Ela fez uma cara que só melhores amigas reconhecem.
        - E o que ele perguntou? - arregalei os olhos.
        - Nada de mais, só se eu tinha notícias. Ele estava preocupado. - ela sorriu. Eu podia entender o lado dele, mesmo ele mal me conhecendo, tinha me salvado de um desastre com pipoca algumas horas antes do sequestro. Seria assustador pra qualquer um. Lembrei do olhar que ele me lançou no cinema, e estremeci. - Ele te ama. - Poppy acrescentou.
        - Não ama não. - retruquei.
        - Ama sim.
        - Não.
        - Sim.
        - Poppy, já não falei pra sair dessa? Tem meninas muito melhores do que eu. - Ela revirou os olhos.
        - Se você continuar se tratando desse jeito não vai conseguir nem o mendigo da esquina. - Revirei os olhos pra zombar dela.
        Um tempo depois, uma enfermeira interrompeu nossa longa conversa e disse que o tempo de visita havia acabado. Me despedi de Poppy e o lugar em que estava foi ocupado pelos meus pais.

Capítulo 3 - O Incidente

        Assim que cheguei ao meu quarto, fechei a porta e abri uma caixa de lembranças de São Paulo. Nela havia várias fotos minhas com Rebecca, e outras com as outras garotas. No meio das fotos, achei um cartão com um ursinho colado na frente. Quando abri, não acreditei. Não lembrava daquele cartão.
        
        "Querida Sarah,
        
        Você sabe o quanto é difícil nos comunicarmos por cartas, mas eu sei que você vai embora pro Rio de Janeiro, e vai sentir nossa falta. Por isso estou escrevendo isso. É pra que você não se esqueça nunca de como nós fomos amigas, unidas, de quantas trapaças, brincadeiras, alegrias e tristezas passamos juntas. Não é uma mensagem daquelas bonitas, todas trabalhadas, com poesias nem nada disso. Mas é só uma lembrança de nós, pra você. Eu te adoro.

                                                                        Beijos, Rebecca."

                                                                        ***

        "- CHEGA! O que vocês pensam que estão fazendo? - berrei, saltando de trás das caixas, vendo Rebecca pasma com o cabelo cortado.
        - Sarah? Achei que você fosse covarde demais para aparecer e salvar sua amiguinha idiota. - Nicole disse. Minha visão se tornou vermelha. E tudo em que eu queria pensar era acabar com ela. Não pensei duas vezes , avancei com o punho levantado em direção ao rosto de Nicole. Todas sabiam que eu era a mais nova, porém não a mais fraca. Ouvi um estalo, e seu nariz estava sangrando. Amanda e Julie levantaram Rebecca pelos braços e cochicharam algo em seu ouvido. Ela começou a correr, mas estava muito bêbada pra se equilibrar em seus saltos; chegava mais perto da beira da calçada, que dava para um rio.
        - Rebecca, cuidado! - gritei enquanto Nicole virava o jogo.
        - Amanda! Julie! O que vocês estão esperando, suas idiotas, me ajudem a acabar com essa garota! - ela gritou. Minha cabeça se chocou contra a parede. Senti uma dor profunda, porém nada que me deixasse baixar a guarda. Meus olhos oscilavam entre Nicole, Amanda, Julie e Rebecca, cada vez mais próxima da beira. Chutei o joelho de Nicole, e Amanda me empurrou na direção de Rebecca.
        - Becca! - gritei pela última vez. Seu corpo se inclinou pra trás, e depois estava em queda livre sobre o rio.
        - Droga, viram o que fizeram? - Nicole bradou entre gemidos de dor. As outras a ajudaram a sair dali, e eu fiquei sozinha, exposta à neblina densa. Olhando o corpo já pálido desaparecer sob o rio.

                                                                        ***

        - Mãe, de onde apareceu isso? - levantei o cartão que havia achado.
        - Oh! Isso... você sabe, quando Rebecca... enfim. A mãe dela me entregou isso, dizendo que estava na estante dela. Então eu coloquei na sua caixa de lembranças antes de nos mudarmos. Tudo bem? - ela disse, meio cabisbaixa.
        - Ah, tudo bem. - respondi. Mamãe não gostava de falar dessas meninas, justamente pelo acontecido. Simplesmente não foi uma boa época pra ninguém. Almocei e fui fazer os deveres de casa. Pra minha completa surpresa abro minha agenda e tenho três deveres de matemática. Suspiro e penso como todas as tardes após o almoço: vamos lá.
        Uma meia-hora depois, recebo um SMS da Poppy:

        "Hey girl! Quer ir no cinema ver alguma coisa?"

        Respondo:

        "Depende se minha mãe deixar."

        Assim que apertei o botão "enviar", corri pro quarto da minha mãe pra perguntar se eu podia ir, afinal eu fazia tudo menos os deveres. Estava passando um filme na Sessão da Tarde e ela encarava a tela de forma tão hipnotizada que se não me engano, não consegui vê-la piscando. Quando seu queixo começou a cair, decidi intervir.
        - Mãe. A Poppy me chamou pra ir no cinema com ela, quero saber se eu posso ir e se você pode me deixar no shopping. É agora às quatro e meia. - Ela continuou com a mesma cara pra televisão. - Mãe. - chamei novamente. Nada. - Mãe. - entrei na frente da televisão. Nem um centímetro. - Mãe, caramba! - virei o braço e desliguei.
        - Sarah, pelo amor de Deus! Ele ia falar que ama ela! O quê que é? - ela finalmente saiu de seu estado de transe, ainda sim se achando no direito de dar chilique.
        - Posso?
        - Pode o quê? - Eu posso jogar a mão na minha cara?
        - Eu disse que a Poppy me chamou pra ir no cinema com ela, quero saber se eu posso ir e se você pode me deixar no shopping. Às quatro e meia.
        - Ok, vai trocar a sua roupa. - Peguei uma calça jeans, um tênis e um casaco alguns números maior que o meu. O que eu normalmente usaria em um dia frio no Rio.
        Poppy me esperava sentada num banco em frente às portas automáticas, a cara grudada em seu iTouch. Nem me viu chegando.
        - Facebook? - perguntei.
        - Sammy! Que susto. - Sammy era meu apelido, que só as pessoas mais próximas usavam.
        - Então, vamos ver que filme?
        - Não sei, está passando algum da Mística? - Tsc tsc. O que fazer com essas pessoas desinformadas.
        - Não Poppy, o próximo, Olhos de Rubi, lança somente em novembro. Ainda estamos em junho.
        - Ah, ok. Sei lá, vamos ver qualquer coisa. - Acabamos comprando ingressos para um filme de comédia romântica.
        Pedi um combo com duas pipocas médias, dois copos de Coca-cola e dois pacotes de amendoim caramelizado. Eu sempre prestava o dobro de atenção nos degraus iluminados da sala de cinema, porque sempre achava que eram curtos demais. Depois de nos sentarmos em nossos respectivos lugares, olhei pro aglomerado de poltronas do outro lado e lá estava ele, em toda a sua simplicidade e perfeição. Bruno. Engasguei com a pipoca que estava na minha boca, e comecei a lacrimejar. "Bela aparição", pensei pra mim mesma. Nem falei com a Poppy sobre sua presença, senão ela ficaria louca pedindo pra eu falar com ele, ou ia até ele pedir pra ele falar comigo, então melhor não passar mais vergonha do que já estava. Os trailers começaram, e a sala escureceu. Graças a Deus. Ou não. Um senhor idoso que havia voltado pra sala, não conseguia enxergar onde estava sua poltrona, e por algum motivo misterioso achou que eu era a sua. Ele entrou na nossa fileira, e ia sentar em cima de mim, se não fosse por Poppy cutucando suas costas. Ele se virou.
        - Com licença, o senhor está sentando em cima da minha amiga pastel que não fala nada. - Obrigada, Poppy.
        - Me desculpe mocinha! - E lá se vai corredor abaixo, andando com dificuldade, o senhor idoso que precisa de um óculos. Olhei pro lado, o lado dele, e ele estava me olhando. Sorriu e deu uma risada discreta. Ótimo, ele viu. Minha sorte não tinha como aumentar.
        - O que aconteceu, menina? Parece que você viu algo suspeito. - Poppy perguntou ao ver minha cara paralisada, quando saíamos da sala. Quase que ao mesmo tempo, Bruno e seu amigo esbarraram nela, e se desculparam - Ah, entendi. - Ela sorriu e me deu um empurrão.
        - Ai! - voei à minha frente, tropecei no pé de alguém e, antes de bater de cara no balcão de pipoca, alguém puxou meu casaco, impedindo o desastre completo. Me virei, e gelei.
        - Você está bem? Samantha, não é? - Bruno me olhou diretamente nos olhos. O nome errado estragou o clima, mas isso pouco me importava.
        - Sarah. O-obrigada. - gaguejei.
        - De nada, Sarah. Ei, você estuda na Bandeirantes?
        - Sim, estudo. - olhei pra Poppy com um olhar de desaprovação. Ela fez um sinal pra continuar conversando com ele.
        - Legal. A gente se vê lá então. - Ele acenou e foi em direção à saída. Acenei de volta, ainda congelada.
        - Ah meu Deus, Sammy! "A gente se vê lá então". - ela fez uma imitação nada a ver da voz dele. - Ele te ama.
        - Não ama não.
        - Claro que ama.
        - Claro que não.
        - Sim.
        - Não.
        - Sarah!
        - Cala a boca. Você me deve desculpas.
        - Pelo quê?
        - Por ter me lançado no balcão de pipoca?
        - Ah, desculpa. Era só pra você ter esbarrado nele.
        Algumas horas depois, liguei pro meu pai vir me buscar. Me despedi de Poppy e entrei no carro.
        - Oi pai. - Minha relação com o meu pai era muito mais próxima do que com a minha mãe. Simplesmente porque eu passava menos tempo com ele, portanto convivia menos com ele, o que o poupava dos conflitos entre eu e mamãe.
        - Oi filha. Seu dia foi bom? - ele perguntou.
        - Foi.
        - Olhe o banco de trás. - ele sorriu. Fiz o que ele pediu, e havia um pacote amarelo. Quando rasguei (nunca havia perdido o costume de criança), meus olhos brilharam.
        - Pai, obrigada! Eu te amo! - dei um beijo em sua bochecha. Era o quarto livro da Mística, Segredos do Anoitecer.
        - De nada. Comprei assim que vi na livraria. - ele sorriu novamente.
        Quando subimos, peguei o livro, me joguei na cama e comecei a ler. Mamãe estava fazendo macarrão pro jantar e papai estava assistindo um jogo do SPFC, time pelo qual toda a família torcia.
        - Sarah, o jantar está na mesa! - meu pai chamou.
        Durante o jantar, ouvimos uma gritaria e uma agitação muito grande lá embaixo. Meu pai largou os talheres e foi na janela ver o que estava acontecendo.
        - Karen, Sarah! Tranquem as janelas e não fiquem perto delas! Agora! - ele alertou.
        - Pai, o que está acontecendo?
        - Agora não, filha. Apenas faça o que eu mandei. - ele lançou um olhar preocupado pra mim, o que significava que ele estava falando sério. Fui fechar tudo que estava aberto ainda.
        - Amor, o que está havendo? - mamãe perguntou.
        - Parece um assalto à mão armada. - papai respondeu.
        - Chama a polícia, pai! - insisti. Ouvimos um barulho de sirenes segundos depois.
        - Alguém já deve ter ligado. Vai ficar tudo bem, vamos terminar de comer. - mamãe sugeriu.
        Terminamos o macarrão; minha mãe foi arrumar a mesa e meu pai e eu fomos ver se conseguíamos alguma informação na televisão. A equipe de reportagem local filmava a frente do meu prédio, e só então tive noção da confusão. Haviam viaturas da polícia civil e militar, até atiradores de elite posicionados nas casas da frente. Era um sequestro, do nosso prédio. Alguém no nosso andar gritava algo parecido com "Abram suas portas! Não tenham medo!" e batia nas portas dos vizinhos e na nossa. Meu pai foi até o olho mágico, olhou por um tempo, e foi possível ver seu corpo se tensionando. De repente ele correu, desligou a televisão, pegou minha mãe e eu pelo braço e nos arrastou até o quarto deles, trancando a porta.
        - Quem é? - cochichei.
        - Um dos sequestradores. - ele respondeu.
        - Preciso pegar meu celular.
        - Você não sai desse quarto. Enquanto tudo isso não acabar. - minha mãe me olhou, alarmada.
        Passaram-se duas horas, tudo do mesmo jeito, exceto pelas batidas na porta, que cessaram. Eu estava com sono e vontade de ir ao banheiro, sorte minha que meu pai havia nos trancado em uma suíte.
        - Mãe, me deixa sair. Pelo menos posso pegar meu livro? - implorei. Parar no meio de uma leitura de um livro como aquele era loucura. Ela fez uma cara de resistência, olhou pro meu pai.
        - Não sei... - ela indagou.
        - Por favor! - falei, prolongando a última palavra para dar mais dramaticidade.
        - Tá, pode. Mas por favor - ela também prolongou a última palavra - tome cuidado.
        - Ok. - me levantei num pulo e destranquei a porta. Corri na ponta dos pés até o meu quarto. Vasculhei minha mochila à procura do meu celular; achei ele na estante que quase não era usada, nem sei porque o deixei lá. Coloquei Segredos do Anoitecer debaixo do braço e fiz o caminho de volta pro quarto dos meus pais.
        Ao passar pela sala, sem querer chutei a mesinha de centro com o mindinho. Sempre o mindinho, impressionante. Mas o incidente foi pior do que parecia. A jarra de vidro que se encontrava na mesa balançou e caiu, fazendo mais barulho do que eu esperava. A porta social se abriu, o sequestrador que vigiava o andar havia arrombado. O medo tomou o meu corpo ao ver o que estava em sua mão. O revólver subiu até ficar apontado na minha direção.
        - Pai. Mãe. - sussurrei com a voz trêmula. O quarto estava em completo silêncio, até a maçaneta girar e meu pai aparecer no portal. Quase que imediatamente, o sequestrador fez uma gravata em mim e senti o cano da arma na minha cabeça.
      

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Capítulo 2 - Lembranças

        - Sarah, acorde! - ouço o berro da minha mãe, vindo da cozinha. Levo uma vida relativamente comum: pertenço à classe média alta, moro no mesmo apartamento desde os sete anos; atualmente tenho treze. Tenho os cabelos castanho-claro, cacheados, e olhos azuis. Minha avó, antes de morrer, costumava dizer que tenho pele de porcelana, por ser muito clara.
        Levanto da cama, estico meus músculos e olho à minha volta. Tenho milhares de pôsteres, inclusive uma prateleira sagrada para meus livros da série "Mística". Milhares de pessoas no Brasil afora eram maníacas por ela, assim como eu. Quando chego no banheiro e olho no espelho, me assusto. Minhas pálpebras estavam manchadas de preto por causa da maquiagem da festa de ontem, e meu cabelo poderia servir de ninho para alguns passarinhos no caminho da escola. Amarrei-o num rabo de cavalo, lavei o rosto e fui, arrastando os pés, tomar café da manhã.
        - Sarah, você já olhou as horas? - minha mãe resmungou.
        - Não. Não quero correr.
        - Sinto muito, faltam quinze minutos para a sua aula começar.
        Droga, odiava me atrasar. Soquei um pedaço de pão na minha boca, e com medo de engasgar, bebi um gole de leite direto da caixa. Deslizei dentro do meu uniforme, peguei minha mochila e saí correndo.
        - Ah, desculpa! Bom dia! - falei ao porteiro com cara de tédio ao esbarrar nele. A caminhada pra escola durava cinco minutos, mas agora teria que durar no máximo dois, já que estava correndo. Uma sensação de alívio tomou meu corpo ao chegar nos portões da escola Bandeirantes, cinco minutos antes de tocar o sinal.
        - Caramba, Sarah! Onde você estava?- Paola disse, saltitando na minha direção. Paola, mais conhecida como Poppy, era minha melhor amiga. Ela era meio maluquinha, justamente o que eu gostava nela. Seu humor alegrava meus dias.
        - Dormindo. - respondi, andando em direção à nossa sala.
        - E acordou de mau humor, pelo visto. - Poppy retrucou, fazendo uma careta. - Ai meu Deus, olha lá, é o Bruno.
        - Hm. - Bruno era provavelmente um dos garotos mais lindos da escola, se não da cidade. Poppy insistia que eu gostava dele, mas não era verdade.
        - Sarah! Ele acabou de olhar pra você! - ela batia histericamente no meu braço. Assim que a informação processou na minha mente, minha tentativa de enfiar o livro de matemática no armário falhou de vez. O livro caiu no chão e a porta ricocheteou na minha cabeça.
        - Onde?! - Bom, talvez fosse verdade. Um pouquinho verdade.
        - Nossa, precisava ser tão afobada assim? Ele já passou. - Poppy falou, pegando meu livro de matemática do chão.
        - Ah, me desculpe se você só serve pra atiçar a minha curiosidade. - disse com um sorriso bobo.
        Lá estava eu, quieta em meu canto, servindo de estátua para o resto da turma em sua rotineira baderna. A professora explicava (ou tentava, como na maioria das vezes) as instruções para nosso próximo trabalho.
        - Tudo bem, turma! Agora é com vocês. - ela vociferou, incomodada o bastante com o desrespeito. Sentou em sua mesa.
        Eu era relativamente quieta, e considerada a nerd da turma. Desde o maternal. Ao invés de fazer o que devia, fui completar minhas anotações. Dia: 10/4, quinta-feira, 9h30 da manhã. Grupo (ou gangue, como prefiro chamar) da Cassie discutindo a nova lista da turma. Com certeza, Sarah, meu querido nome, estaria novamente incluído nas categorias "Mais tímida", "Mais sonhadora", "Mais nerd" e, para benefício social, "Mais idiota". A pobre da Poppy era incluída apenas na categoria "Mais estranha". Tinha pena dela, apesar de perder pra ela em número de categorias. De quê adiantava reclamar, eu já estava no fundo do fundo da popularidade. Simplesmente, não vejo o porquê dos professores autorizarem essas listas.
        Sou interrompida de meus devaneios com uma bolinha de papel amassado atingindo a minha cabeça. Abro para ler: era o dever de matemática do Gabe, um dos valentões da sala. No canto do papel, estava escrito:

        "É para amanhã. Se não estiver feito, você já era."

        Eu poderia responder com outra mensagem:

        "Do jeito que isso está amassado, a professora vai provavelmente usar pra catar o cocô do cachorro."

        Mas eu tenho muito amor à vida, então apenas ignorei a ideia. Outra bolinha de papel; jogo a de Gabe na mochila e abro pra ler. Não tinha nada, era apenas uma folha em branco. Sem motivo algum, a turma inteira passa a jogar bolinhas de papel em mim, rindo e voltando à bagunça normal. Uma das bolinhas se distinguiu das outras, era rosa, com margem e desenhos fofos. Poppy. Peguei a folha e abri.

        "Tá a fim de ver o jogo do Bruno no intervalo? Tem uma tonelada de garotos lindos no time de basquete."

        Na mesma folha, escrevi:

        "Pode ser, se eu sobreviver até lá."

        E joguei de volta.

        - Sarah, se toca. Você não pode deixar que as pessoas te humilhem daquele jeito. - Poppy comentou enquanto andávamos para as quadras.
        - Olha, eu não me importo com a opinião das pessoas. A professora nem estava olhando.
        - É, mas eu estava, e eu não gosto disso.
        - Que bom.
        - Para! Estou tentando te ajudar e você simplesmente me despreza. Assim não conte comigo pra mais nada.
        - Tá bem, desculpa. Eu só acho que não faria diferença se falasse com alguém, Poppy. - Nos sentamos nas arquibancadas com nossos lanches. Na verdade Poppy dividia o dela comigo, já que eu tinha saído feito maluca de casa. Não era novidade que havia esquecido tudo.
        - Olha pra mim. Eu sei que o passado ainda te afeta. Só porque Rebecca morreu em uma brincadeira estúpida, você não precisa se culpar. O que importa é que quem fez isso está na cadeia. - Ela me pegou de surpresa ao mencionar essa história. Fazia tempo que não comentávamos dela, obviamente porque Poppy sabia que eu me sentia desconfortável.
        A história sobre a qual ela se referia era um grupo de amigas que eu tinha quando ainda morava em São Paulo. Eram amigas mais velhas. Foi uma época bem transtornada, porque elas me influenciaram a frequentar a escola pública em que estudavam, às escondidas. Eu era a criancinha do grupo, mas não era por isso que era tratada diferente. Eu não era, era tratada assim como todas as outras. Exceto Rebecca. Ela era a líder do grupo, e tinha unhas perfeitas, cabelo perfeito, maneiras perfeitas, notas perfeitas. O resto era sorte, e se eu dissesse que as outras não a invejavam, estaria mentindo. Apesar de ter todo o perfil de patricinha, ela era completamente o oposto. Gentil, engraçada, bondosa, educada... eu a amava. É até difícil acreditar. Porém, sempre ouvi dizer que inveja mata.

                                                                                ***                                                     

        "Pessoal! Sarah está conosco! - Nicole anunciou. - Podemos ir. - Chegamos a um bar, não muito adequado para a nossa idade. Bom, para a minha. Me sentia insegura quanto às roupas que elas me faziam vestir, mas me diziam que a polícia iria culpá-las e elas iriam para a cadeira se eu não as usasse. Rebecca tinha ido ao banheiro, e as meninas me puxaram para um canto.
        - Escute, armamos pra rosinha. - assim elas chamavam Rebecca - Queremos que você ajude.
        - O que vocês vão fazer? - perguntei.
        - Distrairemos ela até os fundos. Quando ela estiver fora de si o suficiente, vamos aprontar. Está dentro? - Nicole fez um sorriso maléfico. Não gostei daquilo.
        - Não. Não estou dentro. - respondi com firmeza.
        - Como assim não está dentro? Amarelou com a gente agora, bebê? - Nicole ficou brava.
        - Sim, é o que parece. Rebecca é minha amiga. - Nicole me empurrou contra a parede e murmurou algo parecido com "Sabia que você não prestava". Eu sabia que não podia ficar mais ali, elas armariam pra mim também, mas ficaria. Apenas por Rebecca.
         Saí para os fundos, e me escondi atrás de algumas caixas de entulho. Eu ouvi elas chegando. Rebecca já estava grogue e cambaleava, se apoiando nas paredes e rindo. As outras iam atrás.
        - Por quê você não senta aqui, Becca? - Julie perguntou. Amanda guiou-a para uma caixa no meio do espaço deserto.
        - Então, por quê você não começa nos contando como é sua vida de riquinha? - Nicole apontava uma garrafa de cerveja para Becca.
        - O quê? Eu quero dormir. - Caramba, capricharam no trabalho. Nunca havia visto Rebecca tão ausente da realidade como esta noite.
        - Não se finja de boba. - Meu corpo se tensionou ao ver Nicole lentamente retirando um canivete de seu bolso. Ela se aproximou.
        - Amanda, Julie, por favor. - ela gesticulou para o cabelo de Rebecca. Ambas as meninas seguraram juntas e Nicole passou a lâmina bem no meio dos fios sedosos. Uma mecha de cabelo ruivo caiu no chão."

                                                                                *** 

        - É Poppy, mas eu estava lá, é uma coisa diferente. - argumentei.
        - Ok, ok, vamos nos concentrar no jogo. - O time de basquete do qual Bruno fazia parte era até bom. Eles fizeram uma cesta de três pontos logo nos dois primeiros minutos. O jogo ficou equilibrado, muitas faltas, mas o time da escola estava classificado para os jogos regionais. O resto da manhã decorreu tranquilamente, as aulas chatas como normalmente eram. A pé, voltei pra casa, as memórias ainda latejavam na minha cabeça.

Capítulo 1 - Quem Sou Eu

Nome: Claire Danes
Idade: 16 anos
Nacionalidade: Africana
Tipo sanguíneo: O+
Endereço: -
Telefone: -
Em caso de emergência, avisar: Jackson Danes
Telefone: -

        Acho que noventa por cento dos meus gastos mensais são feitos com agendas. Eu adoro agendas. Principalmente quando consigo tirar um tempinho para preencher os dados pessoais. Exceto pela parte em que eu tenho que mentir em quase todos eles.
        Bom, meu nome é Sarah Kings. Tenho 14 anos, sou brasileira. Não sou autorizada a colocar meu telefone nem meu endereço, que por acaso muda, em média, a cada seis meses. Nem nada do meu contato de emergência. Minha existência pessoal é um segredo.
        Minha realidade é: seguranças, câmeras, premiações, câmeras, casas móveis, câmeras, vestidos caros e... acho que esqueci de mencionar as câmeras. A vida dos sonhos de qualquer garota comum. Não a minha.

Prólogo

Nunca fui capaz de imaginar o quão desgraçada e imprevisível a vida pode ser.