Assim que cheguei ao meu quarto, fechei a porta e abri uma caixa de lembranças de São Paulo. Nela havia várias fotos minhas com Rebecca, e outras com as outras garotas. No meio das fotos, achei um cartão com um ursinho colado na frente. Quando abri, não acreditei. Não lembrava daquele cartão.
"Querida Sarah,
Você sabe o quanto é difícil nos comunicarmos por cartas, mas eu sei que você vai embora pro Rio de Janeiro, e vai sentir nossa falta. Por isso estou escrevendo isso. É pra que você não se esqueça nunca de como nós fomos amigas, unidas, de quantas trapaças, brincadeiras, alegrias e tristezas passamos juntas. Não é uma mensagem daquelas bonitas, todas trabalhadas, com poesias nem nada disso. Mas é só uma lembrança de nós, pra você. Eu te adoro.
Beijos, Rebecca."
***
"- CHEGA! O que vocês pensam que estão fazendo? - berrei, saltando de trás das caixas, vendo Rebecca pasma com o cabelo cortado.
- Sarah? Achei que você fosse covarde demais para aparecer e salvar sua amiguinha idiota. - Nicole disse. Minha visão se tornou vermelha. E tudo em que eu queria pensar era acabar com ela. Não pensei duas vezes , avancei com o punho levantado em direção ao rosto de Nicole. Todas sabiam que eu era a mais nova, porém não a mais fraca. Ouvi um estalo, e seu nariz estava sangrando. Amanda e Julie levantaram Rebecca pelos braços e cochicharam algo em seu ouvido. Ela começou a correr, mas estava muito bêbada pra se equilibrar em seus saltos; chegava mais perto da beira da calçada, que dava para um rio.
- Rebecca, cuidado! - gritei enquanto Nicole virava o jogo.
- Amanda! Julie! O que vocês estão esperando, suas idiotas, me ajudem a acabar com essa garota! - ela gritou. Minha cabeça se chocou contra a parede. Senti uma dor profunda, porém nada que me deixasse baixar a guarda. Meus olhos oscilavam entre Nicole, Amanda, Julie e Rebecca, cada vez mais próxima da beira. Chutei o joelho de Nicole, e Amanda me empurrou na direção de Rebecca.
- Becca! - gritei pela última vez. Seu corpo se inclinou pra trás, e depois estava em queda livre sobre o rio.
- Droga, viram o que fizeram? - Nicole bradou entre gemidos de dor. As outras a ajudaram a sair dali, e eu fiquei sozinha, exposta à neblina densa. Olhando o corpo já pálido desaparecer sob o rio.
***
- Mãe, de onde apareceu isso? - levantei o cartão que havia achado.
- Oh! Isso... você sabe, quando Rebecca... enfim. A mãe dela me entregou isso, dizendo que estava na estante dela. Então eu coloquei na sua caixa de lembranças antes de nos mudarmos. Tudo bem? - ela disse, meio cabisbaixa.
- Ah, tudo bem. - respondi. Mamãe não gostava de falar dessas meninas, justamente pelo acontecido. Simplesmente não foi uma boa época pra ninguém. Almocei e fui fazer os deveres de casa. Pra minha completa surpresa abro minha agenda e tenho três deveres de matemática. Suspiro e penso como todas as tardes após o almoço: vamos lá.
Uma meia-hora depois, recebo um SMS da Poppy:
"Hey girl! Quer ir no cinema ver alguma coisa?"
Respondo:
"Depende se minha mãe deixar."
Assim que apertei o botão "enviar", corri pro quarto da minha mãe pra perguntar se eu podia ir, afinal eu fazia tudo menos os deveres. Estava passando um filme na Sessão da Tarde e ela encarava a tela de forma tão hipnotizada que se não me engano, não consegui vê-la piscando. Quando seu queixo começou a cair, decidi intervir.
- Mãe. A Poppy me chamou pra ir no cinema com ela, quero saber se eu posso ir e se você pode me deixar no shopping. É agora às quatro e meia. - Ela continuou com a mesma cara pra televisão. - Mãe. - chamei novamente. Nada. - Mãe. - entrei na frente da televisão. Nem um centímetro. - Mãe, caramba! - virei o braço e desliguei.
- Sarah, pelo amor de Deus! Ele ia falar que ama ela! O quê que é? - ela finalmente saiu de seu estado de transe, ainda sim se achando no direito de dar chilique.
- Posso?
- Pode o quê? - Eu posso jogar a mão na minha cara?
- Eu disse que a Poppy me chamou pra ir no cinema com ela, quero saber se eu posso ir e se você pode me deixar no shopping. Às quatro e meia.
- Ok, vai trocar a sua roupa. - Peguei uma calça jeans, um tênis e um casaco alguns números maior que o meu. O que eu normalmente usaria em um dia frio no Rio.
Poppy me esperava sentada num banco em frente às portas automáticas, a cara grudada em seu iTouch. Nem me viu chegando.
- Facebook? - perguntei.
- Sammy! Que susto. - Sammy era meu apelido, que só as pessoas mais próximas usavam.
- Então, vamos ver que filme?
- Não sei, está passando algum da Mística? - Tsc tsc. O que fazer com essas pessoas desinformadas.
- Não Poppy, o próximo, Olhos de Rubi, lança somente em novembro. Ainda estamos em junho.
- Ah, ok. Sei lá, vamos ver qualquer coisa. - Acabamos comprando ingressos para um filme de comédia romântica.
Pedi um combo com duas pipocas médias, dois copos de Coca-cola e dois pacotes de amendoim caramelizado. Eu sempre prestava o dobro de atenção nos degraus iluminados da sala de cinema, porque sempre achava que eram curtos demais. Depois de nos sentarmos em nossos respectivos lugares, olhei pro aglomerado de poltronas do outro lado e lá estava ele, em toda a sua simplicidade e perfeição. Bruno. Engasguei com a pipoca que estava na minha boca, e comecei a lacrimejar. "Bela aparição", pensei pra mim mesma. Nem falei com a Poppy sobre sua presença, senão ela ficaria louca pedindo pra eu falar com ele, ou ia até ele pedir pra ele falar comigo, então melhor não passar mais vergonha do que já estava. Os trailers começaram, e a sala escureceu. Graças a Deus. Ou não. Um senhor idoso que havia voltado pra sala, não conseguia enxergar onde estava sua poltrona, e por algum motivo misterioso achou que eu era a sua. Ele entrou na nossa fileira, e ia sentar em cima de mim, se não fosse por Poppy cutucando suas costas. Ele se virou.
- Com licença, o senhor está sentando em cima da minha amiga pastel que não fala nada. - Obrigada, Poppy.
- Me desculpe mocinha! - E lá se vai corredor abaixo, andando com dificuldade, o senhor idoso que precisa de um óculos. Olhei pro lado, o lado dele, e ele estava me olhando. Sorriu e deu uma risada discreta. Ótimo, ele viu. Minha sorte não tinha como aumentar.
- O que aconteceu, menina? Parece que você viu algo suspeito. - Poppy perguntou ao ver minha cara paralisada, quando saíamos da sala. Quase que ao mesmo tempo, Bruno e seu amigo esbarraram nela, e se desculparam - Ah, entendi. - Ela sorriu e me deu um empurrão.
- Ai! - voei à minha frente, tropecei no pé de alguém e, antes de bater de cara no balcão de pipoca, alguém puxou meu casaco, impedindo o desastre completo. Me virei, e gelei.
- Você está bem? Samantha, não é? - Bruno me olhou diretamente nos olhos. O nome errado estragou o clima, mas isso pouco me importava.
- Sarah. O-obrigada. - gaguejei.
- De nada, Sarah. Ei, você estuda na Bandeirantes?
- Sim, estudo. - olhei pra Poppy com um olhar de desaprovação. Ela fez um sinal pra continuar conversando com ele.
- Legal. A gente se vê lá então. - Ele acenou e foi em direção à saída. Acenei de volta, ainda congelada.
- Ah meu Deus, Sammy! "A gente se vê lá então". - ela fez uma imitação nada a ver da voz dele. - Ele te ama.
- Não ama não.
- Claro que ama.
- Claro que não.
- Sim.
- Não.
- Sarah!
- Cala a boca. Você me deve desculpas.
- Pelo quê?
- Por ter me lançado no balcão de pipoca?
- Ah, desculpa. Era só pra você ter esbarrado nele.
Algumas horas depois, liguei pro meu pai vir me buscar. Me despedi de Poppy e entrei no carro.
- Oi pai. - Minha relação com o meu pai era muito mais próxima do que com a minha mãe. Simplesmente porque eu passava menos tempo com ele, portanto convivia menos com ele, o que o poupava dos conflitos entre eu e mamãe.
- Oi filha. Seu dia foi bom? - ele perguntou.
- Foi.
- Olhe o banco de trás. - ele sorriu. Fiz o que ele pediu, e havia um pacote amarelo. Quando rasguei (nunca havia perdido o costume de criança), meus olhos brilharam.
- Pai, obrigada! Eu te amo! - dei um beijo em sua bochecha. Era o quarto livro da Mística, Segredos do Anoitecer.
- De nada. Comprei assim que vi na livraria. - ele sorriu novamente.
Quando subimos, peguei o livro, me joguei na cama e comecei a ler. Mamãe estava fazendo macarrão pro jantar e papai estava assistindo um jogo do SPFC, time pelo qual toda a família torcia.
- Sarah, o jantar está na mesa! - meu pai chamou.
Durante o jantar, ouvimos uma gritaria e uma agitação muito grande lá embaixo. Meu pai largou os talheres e foi na janela ver o que estava acontecendo.
- Karen, Sarah! Tranquem as janelas e não fiquem perto delas! Agora! - ele alertou.
- Pai, o que está acontecendo?
- Agora não, filha. Apenas faça o que eu mandei. - ele lançou um olhar preocupado pra mim, o que significava que ele estava falando sério. Fui fechar tudo que estava aberto ainda.
- Amor, o que está havendo? - mamãe perguntou.
- Parece um assalto à mão armada. - papai respondeu.
- Chama a polícia, pai! - insisti. Ouvimos um barulho de sirenes segundos depois.
- Alguém já deve ter ligado. Vai ficar tudo bem, vamos terminar de comer. - mamãe sugeriu.
Terminamos o macarrão; minha mãe foi arrumar a mesa e meu pai e eu fomos ver se conseguíamos alguma informação na televisão. A equipe de reportagem local filmava a frente do meu prédio, e só então tive noção da confusão. Haviam viaturas da polícia civil e militar, até atiradores de elite posicionados nas casas da frente. Era um sequestro, do nosso prédio. Alguém no nosso andar gritava algo parecido com "Abram suas portas! Não tenham medo!" e batia nas portas dos vizinhos e na nossa. Meu pai foi até o olho mágico, olhou por um tempo, e foi possível ver seu corpo se tensionando. De repente ele correu, desligou a televisão, pegou minha mãe e eu pelo braço e nos arrastou até o quarto deles, trancando a porta.
- Quem é? - cochichei.
- Um dos sequestradores. - ele respondeu.
- Preciso pegar meu celular.
- Você não sai desse quarto. Enquanto tudo isso não acabar. - minha mãe me olhou, alarmada.
Passaram-se duas horas, tudo do mesmo jeito, exceto pelas batidas na porta, que cessaram. Eu estava com sono e vontade de ir ao banheiro, sorte minha que meu pai havia nos trancado em uma suíte.
- Mãe, me deixa sair. Pelo menos posso pegar meu livro? - implorei. Parar no meio de uma leitura de um livro como aquele era loucura. Ela fez uma cara de resistência, olhou pro meu pai.
- Não sei... - ela indagou.
- Por favor! - falei, prolongando a última palavra para dar mais dramaticidade.
- Tá, pode. Mas por favor - ela também prolongou a última palavra - tome cuidado.
- Ok. - me levantei num pulo e destranquei a porta. Corri na ponta dos pés até o meu quarto. Vasculhei minha mochila à procura do meu celular; achei ele na estante que quase não era usada, nem sei porque o deixei lá. Coloquei Segredos do Anoitecer debaixo do braço e fiz o caminho de volta pro quarto dos meus pais.
Ao passar pela sala, sem querer chutei a mesinha de centro com o mindinho. Sempre o mindinho, impressionante. Mas o incidente foi pior do que parecia. A jarra de vidro que se encontrava na mesa balançou e caiu, fazendo mais barulho do que eu esperava. A porta social se abriu, o sequestrador que vigiava o andar havia arrombado. O medo tomou o meu corpo ao ver o que estava em sua mão. O revólver subiu até ficar apontado na minha direção.
- Pai. Mãe. - sussurrei com a voz trêmula. O quarto estava em completo silêncio, até a maçaneta girar e meu pai aparecer no portal. Quase que imediatamente, o sequestrador fez uma gravata em mim e senti o cano da arma na minha cabeça.